Review 303 Art Festival

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Demorou mais finalmente consegui concluir um review pessoal de como foi o 303 Art Festival. Era tanta coisa para contar, detalhes para descrever que as vezes acho que faltou algo.

A primeira edição do 303 Art Festival, realizado entre os dias 29.12.2010 e 02.01.2011, Trancoso — BA ficou marcada pela perseguição de parte da justiça baiana antes mesmo da abertura do camping. Quando a organização do Universo Paralello comunicou a criação de um novo festival — em parceria com a EcoArt — para intercalar com o já conhecido UP (que a partir da décima edição passou a ser bienal) a idéia principal era de realizar um festival “com dimensões menores e não menos consistente”.

O local escolhido foi a Fazenda Jacuma (70km de Porto Seguro), localizada no sul da Bahia, entre as famosas Trancoso e Caraíva, em uma das mais belas praias do país. Considerada uma Área de Preservação Ambiental (APA) e próxima a comunidade indígena Pataxó Imbiriba. Meses antes da abertura do 303 Art matérias envolvendo o nome do mesmo circularam na TV (Fantástico), revistas (Isto É!) e internet. A maioria desse material recriminava o local escolhido para a realização do festival e tinha como principal crítico Marcelo Matoso de Almeida, um empresário paulista que afirmava que a realização de um evento como o 303 Art na fazenda iria prejudicar a fauna e o meio ambiente. O mesmo empresário que em 2007 construiu um muro irregular na Praia do Morcego (Ilha da Gipóia — Angra dos Reis/RJ) para “proteger” sua mansão e suas dez moradias que possui na praia. O paulista também é sócio de um “resort familiar”, o Jacumã Ocean Resort, localizado a poucos quilômetros da Jacuma, onde seus moradores circulam com seus helicópteros, quadriciclos e carros milionários entre o meio ambiente que o empresário deseja manter tão preservado.

No dia 20/12 a sete dias da abertura do camping, a deusa Têmis teve suas vendas retiradas e sua balança pendia para o lado do preconceito. A justiça concedeu uma liminar favorável ao promotor público estadual Maurício Magnavita, para ele o 303 serviria como “palco para tráfico e consumo de entorpecentes”. A organização do festival agiu rapidamente e no dia 24 com o apoio da comunidade indígena, dos governos municipais e estaduais conseguiu um efeito suspensivo e derrubou a proibição.

Com toda a documentação necessária o festival pode finalmente seguir seu cronograma. Logo na chegada do festival éramos acolhidos por uma paisagem fascinante, a bilheteria ficava a uns dez minutos (de caminhada) da portaria — dez minutos na ida, pois na volta um morro existente no meio caminho duplicaria ou dependendo do seu estado de cansaço triplicaria essa distância — após a revista era só andar mais um pouco, por uma trilha que lembrava mais uma serra do que uma praia, para ver as primeiras barracas armadas em baixo das várias árvores existentes. Pronto! Era só erguer a futura casa, guardar as coisas, limpar a mente e se preparar para a primeira edição do 303 Art Festival.

Na abertura da pista principal o cacique Arakati e Semiré confirmou mais uma vez o apoio da comunidade indígena aos trancers e a organização — “Pelo meu sangue pataxó, firmo desde já o nosso compromisso de apoio com o universo paralello em nossas terras”. Quando os primeiros graves surgiram das caixas, São Pedro resolveu mostrar que também estaria presente. Durante os três primeiros dias o tradicional sol baiano deu lugar a um tempo fechado com garoa e momentos de pancadas de chuva que chegaram a “alagar” a maioria das barracas. No final da tarde do dia 30 andando pelo camping era possível ver pessoas retirando a água de dentro de suas barracas com ajuda de canecas, outras furavam o fundo para que a água pudesse escorrer, mas quando olhávamos para o rosto dessas pessoas o sorriso permanecia, a alegria de estar ali era superior ao perrengue vivido no momento.

Esse clima deu um ar diferente ao festival, a sensação que tínhamos era que o mesmo era realizado em alguma cidade de São Paulo, Minas Gerais, Paraná ou qualquer outro estado, mas não na Bahia. A chuva também proporcionou um dos momentos mais espetaculares do 303 — Enquanto Martin aka Human Element e Yuli aka Perfect Stranger viravam suas tracks na pista principal o público, embaixo de chuva, retribuía pulando, sorrindo e mostrando a energia de um verdadeiro festival de música eletrônica.

Um dos assuntos mais comentados foi a infra-estrutura do festival, o número de chuveiros e a utilização de banheiros químicos foram criticados por parte do público. Eu particularmente não sofri com isso, tinha água para banho todos os dias e alguns banheiros eram limpos a todo instante (obrigado ao pessoal da limpeza, verdadeiros guerreiros em alguns momentos). Entretanto a falta de consciência de algumas pessoas que ficavam horas com as duchas ligadas, talvez por achar que estavam em suas casas e outras que por terem a certeza que não estavam faziam as suas necessidades em qualquer lugar — chegando ao ponto do IBAMA fechar um dos acessos à praia (pelo mangue) — é que deve ser criticado. Na comunidade oficial do festival no Orkut pessoas afirmam com a maior naturalidade que preferiram utilizar o mato ao invés dos banheiros.

A estrutura do festival, como já era de se esperar foi bastante reduzida em relação a última edição do Universo Paralello, a decoração de todas as pistas (main, alternativa e chill out) foi uma das reduções mais sentidas pelo público. A qualidade do sound system do main era surpreendente, era possível ter um som limpo e ao mesmo tempo “forte” em qualquer lugar da pista ou da praia.

Outro destaque, apesar de eu não ter aproveitado muito, foi a localização da pista Alternativa. Posicionada no alto do morro a pista proporcionava uma das melhores vistas, era possível ver o sol nascer (lógico que somente após o terceiro dia), observar o main floor do alto e ter uma visão panorâmica de todo o festival. O difícil mesmo era subir a “meia escada — meio morro”.

O Chill out por sua vez ficou em um lugar isolado, perto da área de camping, ao lado de um café. Sorte de quem acampou próximo — poder dormir com um downtempo ao fundo, acordar e tomar aquele café da manhã reforçado para agüentar mais um dia.

O line up de ambas as pistas não deixou a desejar, TOPs DJs fizeram os amantes do full on, prog, dark e low bpm pularem, gritarem e esquecerem por alguns dias o mundo fora do festival. Projetos como Ritmo, Onionbrain, 2012, Ekanta, D-Nox, DJ Fabio, Zaghini, Twenty Eight, Claudinho Brasil, Day.Din — apesar de apertar o play em seu LIVE — e os já citados Martin e Perfect Stranger foram alguns desses destaques positivos. A grande surpresa e ao mesmo tempo “decepção” foi o brasileiro Gabriel Serrasqueiro aka Wrecked Machines encarregado de praticamente “fechar” o festival (penúltimo DJ a tocar na pista principal). Fazia tempo que não via o Gabe em seu projeto de full on, esperava tracks novas e um som mais voltado para o clima de festival. Acabei me desapontando quando ele assumiu o CDJ, durante uma hora senti como se estivesse entrado em uma maquina do tempo e voltado para alguma Tribe ou XXX de 2007.

O guia distribuído pela organização contendo os horários informava que o último projeto a se apresentar seria o The First Stone, formado pelo idealizador do festival Juarez (Swarup), Burn in Noise e Zumbi entraria por volta das 23h do dia 02. Mas na última tarde do festival um cartaz em frente ao bar informava que seria possível assistir mais um nascer do sol, dançando na pista principal. Quando o The first Stone abaixou o volume de sua última track, todos na pista ficaram curiosos para saber quem seria o próximo DJ e se ele manteria a mesma “pegada” do anterior? Para surpresa de todos e descontentamento de alguns, que acabaram deixando a pista logo após as primeiras tracks de minimal, tech e suas variáveis serem viradas, o low acabou dominando as últimas horas do festival.

Às 05 horas e pouco mais de 20 minutos do dia 03 o silêncio tão desejado pelo empresário Marcelo Matos de Almeida acontece. No camping, nas “ruas” e na praça de alimentação ainda se ouvia risadas e comentários sobre os cinco dias vividos naquele solo. Entre uma desmontagem de barraca e outra uma pausa para se despedir, desejar uma boa viagem, um 2011 cheio de luz e um até o UP#11 para os amigos novos ou de festivais anteriores.

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