O Retorno da Droga Maravilhosa

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Por: Eduardo Schenberg, via Plantando Consciência

Grandiosa é a verdade, mas ainda mais grandioso, de um ponto de vista prático, é o silêncio sobre a verdade. Fatos não deixam de existir por serem ignorados. Ao simplesmente não mencionarem certos assuntos… propagandistas totalitários influenciaram opiniões de maneira muito mais eficaz do que conseguiriam com as mais eloquentes denúncias.(Aldous Huxley, aclamado escritor britânico, defensor da ciência psicodélica, que usou LSD na hora da própria morte, transcendendo em paz, em 1963.)

Após mais de 40 anos afastado das ciências médicas, ele voltou. Dia 03 de março de 2014 a revista científica The Journal of Nervous and Mental Disease publicou o primeiro artigo científico sobre o uso terapêutico da dietilamida do ácido lisérgico, mais conhecido como LSD-25 ou simplesmente LSD. Íntimo da contra-cultura desde os anos 60, dos ravers, clubbers e geeks da computação, o LSD é hoje um quase total desconhecido dos psiquiatras e psicofarmacologistas, que deveriam justamente ser os especialistas no assunto.

Após sua proibição nos EUA no final dos anos 60, que se espalhou pelo mundo todo em apenas alguns anos, a verdade politicamente fabricada — de que o LSD apresenta alto potencial para o vício (ou dependência, como é mais comum chamar hoje em dia) e nenhum potencial terapêutico — se tornou um viés acadêmico-científico com pouquíssimos paralelos na história da ciência.

Durante mais de 40 anos esta molécula, inventada pelo cientista suíço Albert Hofmann em 1938, foi vilipendiada, achincalhada e até mesmo demonizada. Enquanto isso, os mais de mil artigos científicos existentes antes da proibição, que de maneira conjunta já demonstravam o oposto dos argumentos usados para proibi-la, foram quase que totalmente esquecidos e banidos da cultura científico-acadêmica. Milhares de artigos e dezenas de livros cientificamente sólidos e sérios sobre o LSD e seus muitos, diversos, potentes e duradouros efeitos se tornaram raridades, mesmo nas bibliotecas acadêmicas.

Por outro lado, um bom tanto de livros sobre a mente e a psique, sobre doenças mentais e sobre o cérebro e as neurociências totalmente ignoram o tópico. Um faz de conta de que a molécula sequer existiu, ou de que não interessa pra nada, ou de que na melhor das hipóteses — quando se inclui o LSD nestas obras — deve ser tratado apenas como curiosidade histórica sem valor algum para o futuro da neurociência, da psicologia, da psiquiatria e da medicina.

Livro de 1971 sobre a mente, editado pela gigantesca LIFE, dedica um bom punhado de páginas ao LSD.

Até certo ponto, funcionou. A intervenção política na psicofarmacologia faz com que disciplinas que tratam sobre o tema das drogas que agem no cérebro e na mente, ministradas em diversas universidades do mundo, ignorem o LSD e os psicodélicos em geral. O resultado são milhões de profissionais formados e certificados, “especialistas” que conhecem mal estes capítulos de sua própria profissão.

Uma das maneiras de interromper a ciência seria permitir experimentos apenas na região onde entendemos as leis. (Richard Feynman)

Mas a realidade não é tão facilmente manipulável. O LSD nunca deixou de existir. Longe disso. São mais de 30 milhões de pessoas, apenas nos EUA, que já usaram LSD ou substâncias similares, como a psilocibina ou a mescalina. Mesmo sendo elas proibidas e perseguidas. Mas são poucos os casos de efeitos adversos, ainda que o uso ocorra num ambiente extremamente desfavorável como o de uma perseguição político-militar que transformou uma droga maravilhosa numa criança problema, como Albert Hofmann gostava de dizer.

Mas as informações legítimas e genuínas continuam, ao menos em parte, disponíveis. Em meio a um mar de desinformação, mentiras e desentendimentos que flutua na rede, sites como Erowid, a Hofmann Library, a MAPS, a Beckley Foundation, o Heffter Research Institute, a Albert Hofmann Foundation, o Gaia Media e, no Brasil, o Plantando Conciência, se esforçam em manter o conhecimento científico sobre os potenciais terapêuticos e transformadores dos psicodélicos acessíveis.

E um fruto destas iniciativas todas foi a publicação deste artigo no Journal of Nervous and Mental Disease, que já repercutiu no mundialmente famoso The New York Times. Trata-se do primeiro projeto clínico em humanos com a droga maravilhosa de Albert Hofmann. Doze voluntários com doenças em estágio avançado, a maioria com câncer, receberam LSD em ambiente terapêutico controlado e com apoio médico e psicológico para aliviar a angústia da aproximação da morte. Todo o estudo foi feito respeitando as modernas normas metodológicas do ensaio duplo-cego randomizado com placebo. Usando escalas psiquiátricas bem conhecidas e validadas no meio científico, o estudo mostrou que o LSD ajudou estes pacientes a diminuirem seu sofrimento, a melhor encararem o desafio final e aceitarem a finitude de suas vidas. Essa melhora durou um ano, ao menos para aqueles que sobreviveram este tanto após a vivência terapêutica com LSD. E outro resultado importante: nenhum efeito colateral adverso ou reação negativa, a não ser efeitos psicológicos de extremo desconforto e aflição durante a ação da substância — que durou cerca de dez horas. Neste período, a maioria dos voluntários chorou muito, alguns até mesmo se contorceram — experiências difíceis, mas que durante a jornada psicodélica se transformaram em compreensão, reflexão e aceitação, resultando em benefícios terapêuticos inestimáveis para quem se encontrava face a face com seus últimos momentos.

O relato de um dos participantes é tocante:

Senti gratidão por poder passar por esta experiência. Gratidão por estes terapeutas que fizeram isso possível. Eles me apoiaram… eu podia chorar ou gritar loucamente de alegria. Muito felizes foram aqueles momentos. Eu recebi cópia das músicas usadas na sessão e quando as ouvi de novo posteriormente era como recarregar minhas energias. Eu me enchia de energia positiva.

Não é pouca coisa. Num universo médico onde a morte é mais frequentemente vista como fracasso, como um evento a ser evitado a qualquer custo, a simples proposta de tratar a ansiedade, a angústia, o sofrimento, medo e pânico de pacientes que se aproximam do evento final de suas vidas já requer um olhar mais compassivo e espiritualmente maduro do que simplesmente não falar do assunto. Ou tentar na marra evitar o acontecimento inevitável, mais gerando sofrimento do que soluções.

Também não é pouco dado o contexto político e burocrático que se criou em torno da ciência psicodélica. O projeto nasceu em 2006, durante simpósio científico em Basel, na Suíça, de homenagem aos 100 anos de Albert Hofmann, que ainda se encontrava vivo. Em 2008 um novo simpósio reuniu os poucos cientistas e acadêmicos ainda cientes da face terapêutica do LSD, com Hofmann participando, aos 102 anos de idade, vindo a falecer pouco tempo depois.

De lá pra cá, como já tem se tornado rotina em todo o mundo, pra fazer ciência nesta área, milhares de requerimentos legais, permissões, burocracias, carimbos, são exigidos. Meses se passam aguardando a resposta dos órgãos oficiais de governos, que sempre terminam por solicitar novos documentos, esclarecimentos e afins, até concederem permissão e autorização para condução do estudo. Frequentemente, o trabalho de pesquisa é atrasado por meses ou mesmo anos, dificultando a execução da pesquisa, que em geral conta com prazos acadêmicos e de financiamento que não podem aguardar por períodos tão longos.

Mas com paciência e persistência, convencidos dos potenciais extraordinários desta substância, este grupo liderado pelo psicoterapeuta suíço Peter Gasser e pelo executivo norte-americano Rick Doblin, conseguiu o feito considerado por muitos como impossível (ou mesmo indesejável). O Governo suíço concedeu autorização para o estudo em novembro de 2007, e o estudo foi finalizado apenas em julho de 2012.

Os resultados, agora públicos e de acesso livre, marcam de uma vez por todas o renascimento da ciência psicodélica. Não são resultados exatamente inéditos, dado que nos anos 60 pesquisadores como Stanislav Grof e Walter Pahnke já haviam feito estudos demonstrando a utilidade do LSD como farmacoterapia para aliviar a crise existencial de doentes terminais. E recentemente, a equipe liderada por Charles Grob na UCLA também demonstrou efeitos positivos obtidos com a psilocibina com pacientes de câncer em estágio avançado, como documentado pelo Plantando Consciência em 2009.

Portanto, mais uma vez evidencia-se que o LSD, como já havia sido demonstrado nos anos 50 e 60, pode ajudar pessoas em sua fase final de vida a viverem melhor e a temerem menos a morte. Continuar negando e impedindo o estudo científico desta substância sob alegação de que não possui potencial terapêutico fica novamente caracterizado como falácia política e perseguição a um ramo promissor da neurociência, psicologia, psiquiatria e clínica médica. Se a molécula pode ajudar pessoas próximas da morte a sofrerem menos, proibir as pessoas de terem acesso a este recurso — se assim desejarem — viola os direitos mais fundamentais que temos: de buscar alívio para nossas almas e corações.

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