Substrance Festival: Existe psicodelia fora do Paraná!

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Viajamos até a edição do Substrance Festival em São Paulo, festa organizada pela crew Safari.

O trance aqui na região de Curitiba passa por um momento bem turbulento o qual está sendo bastante prejudicial para o cenário, mas que, quando olhamos e nos aprofundamos nos bastidores enxergamos uma luz no fim do túnel que pode recolocar o trance de volta nos trilhos.

Mas enquanto as coisas não se estabilizam por aqui, resolvemos rodar alguns kms e fomos parar na primeira edição da Safari — Substrance Festival, que aconteceu no Vale do Ribeira. Nos dias de hoje fico meio assim de elogiar tanto um núcleo ou festa e na próxima edição a festa ser “invadida”, mas ao mesmo tempo não mostrar o quão positivo foi o evento seria uma falta de respeito com os organizadores e egoísmo com outras pessoas que, assim como eu, estão sempre em busca de festas que valorizam e entendem o significado desta nossa cultura trance.

Fotos: Coletivo AJNA

Desde que a DJ Nix convidou o projeto Wakanda para abrir a noite das bruxas, surgiu uma enorme expectativa pelas ideias do evento e a sensação de ter essas expectativas superadas é muito boa.

São poucas as festas em que sentimos segurança em deixar barraca sem cadeado, nos sentimos a vontade na pista e que saímos extasiados com o lugar e principalmente com line up. O Substrance Festival entra para a esta lista exclusiva.

O local escolhido foi as margens do Rio Guaraú, no município de Jacupiranga / SP. Logo na saída do estacionamento encontramos um espaço com chalés e muitas árvores que ficou destinado para a praça de alimentação, caixa e bar. As opções de alimentação e bar foram um dos pontos fortes do evento.

Sabemos que a maior parte do lucro das festas vem da venda do bar / alimentação e por isso alguns núcleos insistem em abusar consideravelmente nestes quesitos. Porém o Safari abriu mão deste lucro para poder oferecer um maior cuidado e respeito ao seu público. Os preços do bar são preços que encontrávamos em festas de cinco, sete anos atrás e, quando vemos um núcleo colocar algo tão essencial como água a R$ 3, percebemos que não estão fazendo a festa apenas em busca de um lucro, mas para manter uma cultura ativa.

Já a praça de alimentação, são poucos os eventos em que podemos encontrar tanta diversidade e lá encontramos opções desde duas cumbucas cheias de aipim ou dois potes de salada de frutas por R$ 5, até um prato com 10 hot roll por R$ 10.

Na mesma área ficavam os banheiros e duchas para banho. Banho quente para as mulheres e gelado para os homens, mas com o calor que fez não deu nem para reclamar da ducha fria, mesmo a noite. Mas fica a dica de puxar uma energia elétrica para os próximos eventos.

Descendo as escadas, chegamos ao camping que beirava o rio — sem riscos de alagar as barracas — e ao mainfloor, montado em um campo de futebol. Tentei puxar pela memória todas as “festas no campinho” que eu já fui e encontrar alguma que tenha sido ruim, mas não consegui achar. Talvez esse seja um dos segredos!

“Mas digo que é gratificante, ver sorrisos e abraços, interações e introversões, conexão com o todo e consigo, as festas são um meio de levar a felicidade aos seus melhores amigos, no meu caso, o meu público.” (Micael Mendes, Safari Crew)

No lineup apenas artistas da região do Vale e de Curitiba e nenhum DJ internacional de cachês altíssimos, o que mostra ainda mais a qualidade que temos em nossas regiões e também a importância de apoiarmos cada vez mais estes artistas.

Tratado como headliner, apesar dele não gostar deste status, Equilíbrio é um dos principais nomes da região do Vale do Ribeira e com tracks autorais tirou muita gente da barraca, inclusive quem está escrevendo. Já do lado paranaense os projetos Sprada e Liber Effectus mostraram que podem estar presente em qualquer line de qualquer festa.

“Existem dois tipos de pessoas. As que reclamam que no Vale não tem nada e as que não limitam os esforços, desafiam o estigma e fazem acontecer. Eu pretendo estar do lado deste segundo grupo, prestigiando e colaborando com o que for preciso” (EQUILIBRIO)

Já o paranaense Sprada tocou no sábado de manhã, embaixo de um forte nevoeiro que insistiu permanecer durante todo seu set. Um set sem muitos efeitos, simples, porém forte e intenso, com tracks de artistas como Vertical Mode, Side Effects e Liquid Soul.

“Festival com a essência do verdadeiro Psytrance, tudo feito com muito amor e carinho. Pico fantástico, sonzeira e a galera muito receptiva. Fiquei muito grato em poder fazer parte dessa conexão Curitiba — São Paulo. Vida longa a Safari Crew” (Guilherme SPRADA)

Outro paranaense que vem mostrando muita qualidade em seus sets e desmentindo a frase que full on da sono é Maicon Lopes com seu projeto Liber Effectus. Um set passando por uma linha mais melódica e mais alegre, até um mais psicodélico com syths mais energéticos e voltando aos melódicos com grooves mais marcantes.

TOQUE COMO UMA GAROTA! A frase estampada na camiseta da mineira, Ariene Vitória, conhecida pelo seu projeto de Psycore, Nala, mostra a importância que ELAS têm no nosso cenário. As bruxas tiveram uma madrugada inteira destinada a elas, mostraram através da música e da dança que bruxarias também podem ser feitas com controladoras e passos.

Muitos momentos tornaram esta noite especial para o evento, como a parceria entre as artistas Wakanda e Nix que abriram a noite com ritual para Hécate. Mas o ponto forte foi o vs entre Evenfolk e Nala que fizeram um verdadeiro live que agradava tanto os ouvidos como os olhos ao ver cada detalhe sendo produzido ali no instante.

Quando a Nix veio com a ideia de uma intervenção a noite e ainda mais na noite das bruxas, o coração já disparou e a ansiedade começou… mesmo estando a mais de um mês da festa. Foi a primeira performance que realizei a noite em uma festa open air e foi preparada especialmente para essa noite, trazendo um ritual de abertura de magia e como inspiração a Deusa Hécate, que é conhecida principalmente por ser a Deusa das bruxas e da bruxaria, associada às sombras da noite, sendo considerada uma deusa lunar.

A noite das bruxas foi algo que esperei e valeu muito a pena, me apaixonei ainda mais pelos sons noturnos, a energia estava incrível e foi muito importante esse espaço para as manas mostrarem que a cena é sim feminina e empoderada! (Caroline Borcate — Wakanda)

Fotos: Adhara Fotografia

Houve também uma estreia nas pistas, Kah Dziurkoski e seu projeto de hitech Kahdzi e que falou um pouco sobre essa experiência.

“Quando se é expectador de uma apresentação não se tem noção do sentimento que há em se posicionar atrás da mesa do DJ. Foram pouquíssimas vezes na vida em que senti tamanha adrenalina felicidade e medo ao mesmo tempo. Depois de umas três traços uns abraços e uma coca cola eu já estava mais calma e um pouco mais a vontade. Consegui naquele momento lembrar de todo o processo que passei para chegar, e de quanto estava feliz e agradecida de poder viver aquilo.

Quero que cada vez mais a pista curta comigo o momento e que consigam sentir a mesma energia que eu sinto ao tocar!” (KAHDZI)

Fotos: Coletivo AJNA

Mas como nem tudo é trance e catuaba, uma das coisas que mais me deixou espantado foi a reação do público em ficar sentado na maior parte do tempo. Sabemos que não é algo pontual desta edição e sim algo que todas as festas, independente do tamanho estão passando. Na maioria das vezes me senti em um teatro a céu aberto, onde ninguém dançava, apenas ouvia o som sentado em suas cadeiras — e eram mais novos que eu –

“Creio que haja inúmeros pontos a serem melhorados, eu tento obter tais respostas me colocando no lugar dos frequentadores!! Os erros desta edição já foram anotados e o trabalho em cima dos mesmos serão minuciosos, o público está muito satisfeito, isso é gratificante, e na próxima vamos tentar dobrar ainda mais a satisfação.” (Micael Mendes, Safari Crew)

Acompanhe um pouco mais através das fotografias feitas pelo Coletivo AJNA e Adhara Fotografia

Fotos: Coletivo AJNA
Fotos: Adhara Fotografia

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