Homem que ajudou a tornar Woodstock realidade conta a experiência em livro e filme

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Por: Gilberto Scofield Jr (O Globo)14

WASHINGTON – O roteirista e produtor Elliot Tiber tinha 34 anos quando Woodstock aconteceu, em agosto de 1969. Apesar de não ter sido um dos organizadores do festival ou de sequer ter feito parte da plateia de meio milhão de pessoas, Woodstock não teria acontecido sem ele. Foi para salvar o hotel El Mônaco, que seus pais haviam comprado em 1955, em Bethel, Nova York, que Tiber ofereceu o terreno do hotel para o festival. Ele soube que os produtores de Woodstock haviam perdido a licença para realizar o show em Wallkill e entrou em contato com Michael Lang, produtor do evento, e com o vizinho, o produtor de leite Max Yasgur, para oferecer o enorme terreno.

O resto é História, e ela pode ser lida na biografia de Elliot Tiber – “Aconteceu em Woodstock” (BestSeller, R$ 34,90) -, escrita por ele e pelo jornalista Tom Monte. Foi com base neste livro que o cineasta Ang Lee filmou “Aconteceu em Woodstock”, que foi exibido em maio no Festival de Cannes, estreia dia 28 nos EUA e chega ao Brasil em janeiro de 2010.

O senhor já viu “Aconteceu em Woodstock”? Achou o filme fiel ao livro?
Já vi o filme oito vezes e acho a história engraçada, leve e ao mesmo tempo apaixonada e fiel ao momento daquela época. É óbvio que a linguagem cinematográfica pede algumas mudanças: minhas três irmãs, por exemplo, acabaram virando uma só no filme, para simplificar. Mas o Ang Lee fez um trabalho ótimo, conseguindo reproduzir, por exemplo, aquela cultura judia nova-iorquina dos meus pais. Aliás, os atores que fizeram meus pais são mesmo muito parecidos com eles.

E o que achou do trabalho do comediante Demetri Martin interpretando o senhor?
Bem, eu era bem mais bonito que ele na época, mas o trabalho dele é excepcional, mostrando com clareza o gay que eu era na época, um sujeito que havia participado das manifestações de Stonewall mas era incapaz de se assumir para a família judia. Ang e James queriam que eu me sentisse feliz com o filme, e eu estou felicíssimo com ele.

Muita gente acha que faltou falar mais dos artistas que se apresentaram no festival.
Mas o filme, assim como o livro, não foi feito para falar dos artistas. Sobre isso já temos muitos documentários, livros e estudos. Minha ideia, e acho que a de Ang Lee, era mostrar os bastidores daquela festa, como ela se tornou possível, e nessa tarefa eles foram muito bem.

As comemorações dos 40 anos de Woodstock parecem maiores do que os eventos dos 20 anos do festival…
E estão sendo mesmo. Eu acho que só mesmo o tempo faz a gente ter uma dimensão exata da importância de determinadas coisas ou pessoas em nossas vidas. A geração que viveu Woodstock está hoje nos seus 60 ou 70 anos, muitos já morreram. E o impacto hoje, na nova geração, é maior.

Como assim?
A realidade americana hoje é de uma crise econômica sem precedentes, duas guerras e um constante sentimento de sobressalto em relação às ameaças terroristas. Viramos um país com medo. Daí, quando se percebe que, em 1969, apesar da Guerra do Vietnã e do presidente Nixon, era possível ser livre e feliz, isso tem um impacto e traz uma nostalgia e uma surpresa imensas. Éramos capazes de ser libertários, de interagir, de brigar pela paz sem vergonha disso. As drogas eram maconha e ácido, drogas gregárias, nada das drogas sintéticas egocêntricas de hoje. A gente se divertia em rolar na lama. Essa simplicidade e alegria de viver meio que se perderam hoje.

E o principal legado de Woodstock, para o senhor, é um legado comportamental, cultural ou musical?
Eu não tinha a menor noção de como o festival mudaria a minha vida e a vida de toda uma geração. Foram três dias de rock e mensagens em defesa do amor livre e da paz no mundo como nunca mais se repetiu. Afinal, era meio milhão de pessoas em Bethel e outras tantas presas no engarrafamento a caminho da festa. Eu levei três anos escrevendo o livro e dois negociando a produção do filme com Ang Lee. E o que eu percebi, nesse meio-tempo, foi que Woodstock mudou a forma como víamos o rock, os jovens, a guerra e até o sexo. Tudo passou a ser olhado com mais seriedade.

E as suas mudanças pessoais? Woodstock o ajudou a se assumir como gay?
Completamente, e isso está claro no livro e no filme. E é bom que seja assim, porque o processo de assumir-se não é o mesmo para todo mundo. Estou cansado de filmes com gays estereotipados, e “Aconteceu em Woodstock” conta a história de uma pessoa que pode ser um exemplo de vida, por achar o seu caminho e sua identidade. E essa é a lição de otimismo e fé na vida que o livro e o filme passam, de forma divertida.

O senhor acabou não assistindo a um show sequer do festival.
Não assisti porque o nosso hotel virou o quartel-general dos organizadores de Woodstock, e nós tivemos um trabalho enorme para viabilizar aquela festa. Mas eu ouvia os artistas do lago ao lado do hotel. E o que eu ouvia era excepcional. O rock produzido e exibido ali era uma mensagem libertária, com letras geniais, bem diferentes do desabafo violento e preconceituoso do hip hop ou do rock pesado atuais. A trilha de Woodstock ficou comigo, ainda que minha cantora favorita seja mesmo a Judy Garland.

E as críticas sobre as drogas e de que aquilo era um evento para hippies?
Era a voz dos conservadores da época, muito parecida com a dos conservadores de hoje. Nosso hotel acabou funcionando como uma espécie de posto de saúde, e o que se via eram casos de gente bêbada ou muito doida de ácido. Ninguém morreu, coisa que seria impensável hoje num festival com 500 mil pessoas.

A cultura americana ficou melhor depois de Woodstock?
Não tenho a menor dúvida. Os eventos daquele verão em Nova York já foram reconhecidos como uma virada na vida cultural americana. E foi tudo tão por acaso…

O senhor agora trabalha na realização do Gaystock? Pode explicar do que se trata?
É um festival de música com bandas de gays e lésbicas para um público homossexual. Há um enorme mercado consumidor para este público que não é bem atendido. Eu não falo só das músicas, mas do pacote musical completo, que inclui as letras e o comportamento das bandas. Deve ser em Miami, onde moro parte do ano. E até sobre isso eu preciso agradecer a Woodstock, porque foi com a visibilidade dos 40 anos do festival que alguns estúdios se interessaram em montar o festival comigo. Ainda não tem data marcada.

Seu livro está sendo lançado em português. O senhor conhece o Brasil?
Fui ao Rio há 20 anos e adorei. Achei magnífico, apesar das recomendações que todos fazem para que os turistas tomem cuidado com a violência. Eu até aprendi umas palavras em português, mas a esta altura já não me atrevo a falar nada.

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