Entrevista: Eli Iwasa

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Foto: Image Dealers

Entrevista realizada em 2009

Kaballah 5 anos, após uma noite de chuva o sol vai surgindo junto com o dia e na tenda “Sounds Like Techno” Eli Iwasa junto com Sam Miura mostra porque já foi considerada a voz do minimal no Brasil pela Cool Magazine. Não resisti e tive que fazer uma entrevista com ela.

Sócia do Kraft, um dos clubs mais respeitados de Campinas (SP), foi a criadora do consagrado projeto Technova no Lov.e Club. Sua versatilidade tornou-se uma marca e seus sets são verdadeiras jornadas musicais, que vão do minimal e sons mais abstratos, passando pelo house pumping e funkeado, electro até o techno cheio de groove.
Sua técnica, feeling e bom gosto, garantiram reconhecimento e respeito dentro da fechada cena paulistana, que vem repercutindo pelo Brasil afora e também no exterior.

Conte como e quando surgiu seu interesse pela música eletrônica?
Sempre amei música, e gosto de ouvir um pouco de tudo mesmo. Ouvia muito rock anos 80, electro pop, ebm quando era adolescente, mas a grande descoberta mesmo foi quando comecei a frequentar o Massivo, depois o Latino, o Hell’s Club — acordei para uma cultura de clubs que até então era algo ocasional para mim. Quando o assunto é música, sempre fui atrás de informação, sempre pesquisei muito, e com música eletrônica não poderia ter sido diferente.

No início de seu envolvimento com a musica eletronica, quais foram suas influências e hoje quais seriam?
Sempre cito o Mau Mau como minha principal referência. Ele foi residente da minha noite — Technova, às sextas feiras no Lov.e Club — por 7 anos e toda semana, era um set mais surpreendente e inspirador que o anterior. Ele sabe me emocionar como poucos DJs e é um artista que respeito muito pela humildade dele e por sua integridade. Tem muito amor ao seu trabalho no Mau e ele sempre foi muito generoso comigo, me deu uma baita força, quando nem achava que poderia levar a carreira como DJ à sério.

Quais foram as principais dificuldades que teve no inicio da carreira?
Honestamente, eu acho que nenhuma. Tive muita sorte, e o privilégio de trabalhar em um club estabelecido como o Lov.e, que definitivamente abriu muitas portas para mim A dificuldade existe como qualquer profissão, quando você começa a buscar espaço. Tem concorrência, tem muita gente mais experiente no mercado, tem muitas coisas para você vencer para construir uma carreira de sucesso, mas acho q isso aconteceria em qualquer outra profissão que eu resolvesse me dedicar.

Como é ser uma mulher nesse cenário? Em termos de mercado (booking essas coisas) as mulheres são tratadas de igual para igual com os homens?
Ser mulher é um grande diferencial. Num mercado competitivo como esse, qualquer aspecto pode te ajudar (ou nem tanto). Eu sempre acho que ser mulher ajuda bastante no começo, pq gera uma curiosidade nas pessoas, mas para se consolidar e conquistar respeito, é necessário mostrar serviço e um trabalho consistente, que independende do sexo da pessoa.

Cite algumas mulheres que na sua opinião também de destacam como DJ.
Eu gosto muito da Misstress Barbara, que faz uns sets poderosos, com técnica e bom repertório. Também gosto muito da MIss Kittin, que sabe misturar bem os estilos e criar uma verdadeira atmosfera de festa. No Brasil, gosto muito da Denise Konzen e da Ingrid. A gente já viajou algumas vezes juntas para tocarmos Brasil afora, e é sempre muito divertido. Rola uma energia legal entre a gente, uma animando a outra.

Como é a Eli fora das pickups? O que faz, o que ouve…
Eu sou bem sossegada. Gosto de ficar em casa com meu maridinho, cozinhar, ler… também amo filmes, sou frequentadora assídua de salas de cinema. Também amo sair para jantar com os amigos, para botar a conversa em dia. Ainda amo sair para dançar, mas acho me restringindo às ocasiões em que vou tocar e quando tem algum DJ que eu goste muito.

Qual a sensação de tocar em uma das maiores festas de Curitiba?
Eu não via a hora de tocar na festa! Sinto uma proximidade muito grande com todo mundo que trabalha na Kaballah, o Gugha é nosso DJ residente no Kraft, e apostou muito no meu trabalho. A Kaballah é como uma grande reunião de família e queria muito participar de edições fora de SP.

Como você vê o cenário eletrônico do Brasil em relação a outros países. O que temos que melhorar e o que temos a ensinar?
Cada vez que eu viajo para o exterior, mais eu valorizo o que a gente tem. O fator humano é nosso grande diferencial, e realmente, o melhor público do mundo está aqui. Gente que tem festa em seus genes, entende?
E vejo a cena brasileira caminhando para uma grande profissionalização, todos os setores se organizando para trabalhar melhor, com seriedade, com mais investimento, gerando empregos e renda para o país.

Em uma entrevista para o site rraurl, no ano passado, você disse que iria lutar pela regulamentação das festas eletrônicas em Campinas e região. Várias autoridades (políticos, delegados) estão lutando pela proibição dos eventos em algumas cidades, e em muitas no Brasil já se obteve essa suspensão. Você como organizadora e DJ como vê o futuro das festas eletrônicas no Brasil?
Acho fundamental a regulamentação das festas, para garantir eventos com segurança para o público, com qualidade e estrutura para atender bem os consumidores.
O que não pode acontecer é um monte de festinhas pipocando por aí que não oferecem o mínimo de conforto para as pessoas que pagam por um bom evento.
Proibir nunca, porque as festas são grandes celebrações musicais e culturais, mas tem que haver regras para quem organiza, e proteger o públi
co de falta de segurança e organização.

Antes o psy trance era o que predominava nas festas, como você vê esse crescimento do low bpm nelas?
Isso eventualmente iria acontecer, como aconteceu com o techno. Antes do minimal, foi uma onda de techno pesado, rápido, que foi natural vir um movimento contra tudo isso. O minimal veio para baixar os bpms, trazer mais groove, deixar a música mais sexy e acho que foi um divisor de águas no techno.
Acho FUNDAMENTAL as grandes festas oferecerem outros estilos de música, porque atualmente os eventos são porta de entrada para muita gente na música eletrônica, fonte de informação para seu público, e é importante cumprir esse papel da forma mais abrangente possível.

Você já foi apontada pela Cool Magazine como a voz do minimal tech no país, qual a sensação de ver o seu trabalho reconhecido?
Eu tive a sorte de sair um pouco mais à frente, foi uma questão de timing talvez. Fui viajar, vi uns sets ótimos do Hawtin e do Villalobos em 4 decks, comprei um monte de discos novos, e quis trazer um pouco daquilo q tinha ouvido para minha noite e meu case.

Defina o seu som para aqueles que não o conhecem.
Gostaria de pensar que ele é indefínivel. Techno, house, electro, pode de tudo, na hora certa! =)

Você já tocou em vários lugares como Universo Paralello, Rex CLub (Paris), Sputnik Days (Alemanha) entre outros? Qual o que mais lhe marcou?
Cada um foi especial da sua maneira. O Rex Club foi minha primeira gig internacional então vai ser sempre marcante. Estava tão nervosa que achava que não ia dar conta, mas é engraçado como basta começar a tocar que o frio na barriga passa. O UP me surpreendeu, não sabia ao certo como o público ia receber meu som, queria que a noite rolasse bem porque tinham outros residentes do Kraft, William e Sassah… mas a pista lotou, o público foi maravilhoso, e até hoje recebo mensagens de pessoas que estavam no festival. Foi a maneira perfeita de dar adeus a 2008, e começar o ano novo a todo vapor.

Qual é mais dificil ser sócia de um dos pricipais clubs do país, o Kraft em Campinas (SP) ou tocar para milhares de pessoas?
Ser sócia do clube exige mais trabalho diário, ficando no escritório durante a semana para proporcionar as festas de final de semana. Pois é, não é só a noite que a gente trabalha! Tem um monte de coisas que vem antes para as noites acontecerem, a festa é só a parte final (e boa!) de todo esforço.
Tocar para milhares de pessoas é um prazer!

Alguma vez já passou sufoco, ou situação inusitada em uma apresentação?
E.I: Já cheguei e não tinha pickups, não tinha retorno, só faltava não ter cabine ahahhahaah.
Fora os pedidos de música malucos que recebo de vez em quando, não me lembro de nada muito inusitado durante uma apresentação.

Cite, alguns projetos / produtores que estão em um grande momento e outros que estão em ascensão na sua opinião
No momento, tenho escutado muito Modeselektor e Apparat. Gostei muito do EP novo do Laurent Garnier também. Acho que quem está em um ótimo momento eh a parceria do Christian Smith & John Selway, eles sempre foram ótimos produtores, mas tem soltado um hit após o outro, sempre com a qualidade característica deles.

Que vertente da eletrônica você jamais produziria?
Hmmmm, electrohouse daqueles bem rasgados não é muito a minha praia.

O público pode esperar em breve algum CD Compilado por você ou quem sabe com músicas exclusivas da Eli?
O Kraft iniciou uma série de compilações do clube. O primeiro volume da noite Progressivamente acabou de sair e foi mixado pelo DJ William. Logo logo, sai a compilação da Discofusão e quem sabe eu não mixo o cd?

– Um Evento — Sónar
– Um Club — Kraft
– Uma Música — Massive Attack — Unfinished Sympathy
– Um Artista — Patti Smith & Debbie Harry, minhas musas punk =)
– Um Sonho — um sonho não, um objetivo: abrir o espaço de eventos e shows do Clube Kraft
– Open air ou club? Os dois, cada um no seu momento.
– Se não fosse DJ o que seria? Acho que teria uma barraquinha de côco verde na Bahia… =)

Soundcloud: https://soundcloud.com/eli_iwasa

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